Pontos Riscados na Umbanda: Significado, Símbolos e Função

Resposta rápida: Pontos riscados são símbolos sagrados desenhados no chão com pemba (giz ritual) por Orixás e entidades durante a gira. Funcionam como “assinatura espiritual” da entidade incorporada e como portal energético que potencializa o trabalho. Cada ponto contém símbolos universais (estrelas, flechas, cruzes, luas, raios) que canalizam intenções específicas. São veículos de comunicação entre o plano espiritual e o material.

Quem entra em uma gira de Umbanda pela primeira vez se impressiona ao ver o médium pegar um pedaço de pemba (giz colorido), ajoelhar-se no chão e desenhar um símbolo intricado em poucos segundos — uma estrela, uma cruz, uma flecha, uma forma única que ninguém ensinou. É o ponto riscado, uma das ferramentas mais sagradas da Umbanda.

Aviso importante: este conteúdo é informativo. Pontos riscados são feitos por médiuns desenvolvidos sob incorporação. Não devem ser desenhados aleatoriamente em casa por curiosidade — cada ponto é uma assinatura espiritual viva.

O que são os pontos riscados?

Pontos riscados são símbolos sagrados desenhados no chão (ou em superfície específica) por médiuns incorporados durante a gira. Cada Orixá, cada entidade, cada falange tem seu próprio ponto — uma “assinatura espiritual” reconhecível.

Eles funcionam em três dimensões:

  • Identificação — mostra qual entidade está incorporada e em qual hierarquia
  • Mobilização — chama a falange (grupo de espíritos) que trabalha com aquela entidade
  • Manipulação energética — abre portais, atrai/repele energias, ancora intenções

Não são apenas desenhos: são veículos de comunicação espiritual. Para entender melhor o contexto ritual, leia o que é Umbanda e os 7 Orixás principais.

A pemba: o giz sagrado

O ponto riscado é normalmente desenhado com pemba — um giz feito tradicionalmente de calcário, considerado material sagrado na Umbanda. A pemba é firmada e consagrada antes do uso, geralmente em contato com ervas, defumação e rezas.

As pembas vêm em cores variadas, cada uma associada a um Orixá ou Linha:

  • Branca — Oxalá, Pretos-Velhos, Linha das Almas
  • Azul — Iemanjá, Ogum (em algumas casas)
  • Amarela — Oxum, Iansã
  • Verde — Oxóssi, Caboclos
  • Vermelha — Ogum (em algumas linhas), Exus, Pombagiras
  • Marrom — Xangô
  • Preta — Exus, trabalhos de Esquerda
  • Roxa/Lilás — Nanã, Obaluaiê

A combinação de cores é parte da mensagem espiritual.

Símbolos universais nos pontos riscados

Embora cada ponto seja único, existem símbolos recorrentes com significados universais na simbologia umbandista:

Sol

Representa Oxalá, força criadora, a luz divina. Comum em pontos de Caboclos do Sol e em pontos de Oxalá.

Lua

Energia feminina, intuição, mistério. Frequente em pontos de Iemanjá, Oxum, Caboclas, Pombagiras e Caboclos da Lua.

Estrelas

Representam a luz, a guia, o caminho espiritual. Estrela de cinco pontas (pentagrama) e seis pontas (Estrela de Davi/Salomão) são comuns.

Flechas

Símbolo de conquista, ruptura, direção, defesa, conhecimento. Identificam principalmente a Linha de Caboclos e Oxóssi (caçador). O Caboclo Sete Flechas tem sete flechas em seu ponto.

Cruz

União do plano material e espiritual, dos quatro elementos, da fé. Aparece em pontos de quase todos os Orixás e entidades como elemento de proteção e conexão divina.

Tridente

Característico de Exus e Pombagiras. Representa o domínio sobre os três planos (material, astral, mental) e a função de “trancar” ou “abrir” caminhos.

Espada

Símbolo de Ogum guerreiro, da Linha de Caboclos guerreiros. Representa proteção, corte de demandas, justiça.

Raios

Identificam Xangô e Iansã — força do trovão, da justiça divina, da transformação rápida.

Ondas

Águas — Iemanjá, Oxum, Marinheiros. Representam fluxo, emoção, fertilidade.

Folhas

Conexão com a natureza, ervas sagradas, cura. Comuns em pontos de Caboclos, Pretos-Velhos, Oxóssi.

Quando os pontos são riscados?

Pontos riscados são feitos em momentos específicos durante o trabalho espiritual:

  • Abertura da gira: alguns dirigentes riscam ponto para “abrir” o trabalho
  • Identificação da entidade: ao incorporar, o médium pode riscar para se identificar
  • Trabalhos específicos: para descarrego, abertura de caminhos, cura, proteção
  • Firmamento de oferendas: ponto desenhado embaixo da oferenda potencializa
  • Desenvolvimento mediúnico: médiuns aprendem seus pontos com tempo de trabalho

Como os pontos são “lidos”?

Pais e mães de santo experientes “leem” os pontos riscados como uma escrita espiritual:

  • Posição dos símbolos — em cima, no centro, na base, à esquerda, à direita
  • Quantidade de elementos — 7 estrelas, 3 cruzes, 4 raios, etc.
  • Cores usadas — branca, vermelha, amarela, preta
  • Direção dos símbolos — flecha para cima vs. para baixo significa coisas diferentes
  • Conjunto total — a “assinatura completa” da entidade

Cada terreiro tem suas tradições de leitura, mas há símbolos universais que qualquer umbandista experiente reconhece.

O que NÃO fazer com pontos riscados

  • Não fotografar sem autorização do dirigente — alguns pontos são privados/iniciáticos
  • Não copiar e usar em casa sem orientação — é trabalho mediúnico, não decoração
  • Não pisar em ponto riscado no chão do terreiro
  • Não apagar antes do encerramento da gira
  • Não ridicularizar — é sagrado, mesmo que pareça simples

Perguntas frequentes

Posso aprender a riscar um ponto?

O ponto não é “aprendido” no sentido racional — é recebido. Quando o médium se desenvolve e está em conexão com sua entidade, o ponto vem naturalmente. Estudar simbologia ajuda a entender, mas o ponto autêntico nasce da incorporação. Sem desenvolvimento mediúnico em terreiro, qualquer ponto desenhado é só ilustração.

Cada entidade tem só um ponto?

Não. Uma mesma entidade pode ter vários pontos, cada um para situação específica: ponto de chegada, ponto de proteção, ponto de cura, ponto de despacho. Em algumas tradições, falanges grandes têm dezenas de pontos diferentes para cada finalidade.

O que acontece se alguém apaga o ponto?

Se for por descuido, geralmente nada — o trabalho energético já foi feito no momento do risco. Mas apagar deliberadamente, com má intenção, é interferir num campo espiritual ativo. A pessoa pode atrair as cargas que o ponto estava manipulando. Por isso, no terreiro, pontos são respeitados.

Pontos só são riscados no chão?

Tradicionalmente sim — o chão simboliza a Mãe Terra, ancorando a energia. Mas em algumas tradições, pontos podem ser riscados em papel, em água (queima depois), em velas (entalhados), em pemba inteira. Cada modalidade tem função e fundamento.

Pontos riscados existem só na Umbanda?

Pontos riscados são característicos da Umbanda, embora variantes existam no Candomblé (chamados “marcas de Orixá”), na Quimbanda e em outras tradições afro-brasileiras. A forma que conhecemos hoje é fortemente identificada com a tradição umbandista.

Onde aprender mais sobre simbologia dos pontos?

O melhor caminho é frequentar terreiros sérios, observar pontos sendo riscados, conversar com pais/mães de santo experientes. Há livros importantes sobre o tema (Saraceni, Diamantino Trindade), mas a vivência supera a leitura — pontos são linguagem viva.

Considerações finais

Pontos riscados são a escrita sagrada da Umbanda. São linguagem que une médium, entidade, terreiro e o plano espiritual num só gesto. Conhecê-los é começar a “ler” a religião por dentro.

Saravá os pontos riscados! Saravá Umbanda. Axé!

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Fontes consultadas

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