
Resposta rápida: A Umbanda cultua tradicionalmente 7 Linhas de Orixás, que são irradiações da Fonte Suprema (Zambi/Olorum). Os 7 principais são Oxalá (paz, criação), Iemanjá (mar, maternidade), Oxum (águas doces, amor), Ogum (guerra, caminhos), Oxóssi (matas, fartura), Xangô (justiça, fogo) e Iansã (ventos, transformação). Cada um tem dia, cores, ervas e oferendas próprias.
Quando alguém se aproxima da Umbanda pela primeira vez, geralmente é pelos Orixás. São eles que aparecem em estátuas, em saudações, em festas populares como a do 2 de Fevereiro de Iemanjá. Mas afinal, o que são? Quantos existem? E como se relacionam com a vida de quem os cultua?
Aviso importante: este conteúdo é informativo e cultural. A vivência espiritual completa só acontece dentro de um terreiro de Umbanda sério, com pai ou mãe de santo experiente.
O que são os Orixás?
A palavra Orixá tem origem yorubá: Ori (cabeça/essência) + Xá (senhor/rei) = “Senhor da Cabeça”. São as irradiações da Fonte Suprema — energias divinas que regem aspectos da criação e da vida humana. Cada Orixá é como um “raio” da luz una de Deus (Zambi/Olorum), separado em uma cor e função específica, como num caleidoscópio.
Importante: a Umbanda é monoteísta na essência. Os Orixás não são “deuses independentes” que concorrem com o Criador — são manifestações vivas das qualidades divinas. Em outras tradições africanas se cultuam mais de 400 Orixás; no Candomblé, 16 ou 21. Na Umbanda, organiza-se em 7 Linhas, cada uma com seu Orixá regente.
Quer entender a religião como um todo antes? Veja nosso artigo sobre o que é Umbanda.
As 7 Linhas e os 7 Orixás Principais da Umbanda
Embora cada terreiro possa organizar de forma um pouco diferente, a estrutura mais comum agrupa os Orixás em 7 Linhas regidas pelos seguintes seres:
1. Oxalá — Pai da Paz e da Criação
Oxalá é o Pai Maior, o Orixá da paz, da pureza, da criação. É o “branco” original, sincretizado com Jesus Cristo no catolicismo brasileiro. Sua linha rege a espiritualidade, o equilíbrio interno e o sagrado.
- Saudação: “Epá Babá!”
- Dia: domingo (e sextas-feiras em algumas casas)
- Cor: branco
- Elemento: ar
- Ervas: alecrim, boldo, hortelã, lírio, manjericão branco
- Oferenda tradicional: canjica branca sem sal e sem açúcar
- Sincretismo: Jesus Cristo (Oxalá Velho = Senhor do Bonfim; Oxalá Jovem = Cristo)
Para vivenciar Oxalá, conheça o banho de Oxalá e o banho de canjica.
2. Iemanjá — Rainha do Mar, Mãe Universal
Iemanjá é a senhora dos mares, a mãe de todas as cabeças, a maternidade universal. É talvez o Orixá mais popular do Brasil — milhares de devotos vão às praias no dia 2 de fevereiro entregar oferendas em sua honra.
- Saudação: “Odoyá!”
- Dia: sábado (e 2 de fevereiro)
- Cor: azul claro, branco e prata
- Elemento: água salgada
- Ervas: alfazema, manjericão, jasmim, lírio-do-mar, tapete-de-Oxalá
- Oferenda tradicional: rosas brancas, perfume, espelhos, no mar
- Sincretismo: Nossa Senhora dos Navegantes / Nossa Senhora da Conceição
3. Oxum — Senhora das Águas Doces, do Amor e da Prosperidade
Oxum rege as águas doces — rios, lagos, cachoeiras. É a senhora do amor, da fertilidade, da beleza, da prosperidade dourada. Doce, mas firme; maternal, mas guerreira quando precisa.
- Saudação: “Ora yeyê ô!”
- Dia: sábado
- Cor: amarelo (e dourado)
- Elemento: água doce
- Ervas: manjericão, camomila, calêndula, alfazema, macela
- Oferenda tradicional: mel, rosas amarelas, champanhe, em cachoeiras
- Sincretismo: Nossa Senhora da Conceição / Nossa Senhora Aparecida
Para conectar com Oxum, faça o banho de manjericão, o banho de prosperidade ou o banho de camomila.
4. Ogum — Guerreiro, Senhor dos Caminhos
Ogum é o Orixá guerreiro, defensor da fé, abridor de caminhos, patrono dos militares, ferreiros e profissionais que enfrentam batalhas no dia a dia. É a força que vence demandas e quebra barreiras.
- Saudação: “Ogum-iê! Patacori Ogum!”
- Dia: terça-feira
- Cor: vermelho e azul-marinho (na Umbanda)
- Elemento: fogo (ferro)
- Ervas: arruda, espada-de-São-Jorge, comigo-ninguém-pode, aroeira
- Oferenda tradicional: cerveja, charutos, em encruzilhadas ou estradas
- Sincretismo: São Jorge
Para invocar Ogum, faça o banho de arruda, o banho para abrir caminhos ou o banho de espada-de-São-Jorge.
5. Oxóssi — Caçador, Senhor das Matas
Oxóssi é o Orixá das matas, da caça, da fartura, da abundância. Patrono do conhecimento, das plantas medicinais, dos estudantes. É movimento livre, fartura, conexão com a natureza viva.
- Saudação: “Okê arô!”
- Dia: quinta-feira
- Cor: verde
- Elemento: terra (mata)
- Ervas: guiné, capim-limão, jurema, alecrim do mato, samambaia
- Oferenda tradicional: frutas, milho verde, cerveja preta, em matas
- Sincretismo: São Sebastião
Para conectar com Oxóssi, faça o banho de guiné.
6. Xangô — Senhor da Justiça e do Fogo
Xangô é o Orixá da justiça divina, do equilíbrio, do trovão, do fogo das pedras. Severo mas justo, é invocado em causas judiciais, em situações onde se busca verdade e ordem.
- Saudação: “Kaô Kabecilê!”
- Dia: quarta-feira
- Cor: marrom (ou vermelho e branco em algumas tradições)
- Elemento: fogo (pedra/raio)
- Ervas: noz-moscada, hortelã, quebra-pedra, cordão-de-frade, café
- Oferenda tradicional: cerveja, charuto, em pedreiras
- Sincretismo: São Jerônimo / São João Batista
7. Iansã — Senhora dos Ventos e das Tempestades
Iansã (também chamada Oyá) é a guerreira dos ventos, das tempestades, dos raios. É a única que dança com os mortos (eguns), trazendo transformação. Mulher livre, intensa, dona da própria voz.
- Saudação: “Eparrei Oyá!”
- Dia: quarta-feira
- Cor: amarelo (na Umbanda — em outras tradições, vermelho)
- Elemento: ar (vento)
- Ervas: dormideira, espada-de-Santa-Bárbara, peregum-roxo, fumo
- Oferenda tradicional: rosas vermelhas e amarelas, em bambuzais
- Sincretismo: Santa Bárbara
Outros Orixás cultuados na Umbanda
Além dos 7 principais, a Umbanda também cultua, com graus variados de presença em cada casa:
- Obá — Orixá feminino, guerreira, irmã das águas
- Nanã — Mãe ancestral, senhora dos pântanos e da morte/renascimento
- Oxumarê — Orixá do arco-íris, da transformação cíclica
- Obaluaiê / Omolu — Orixá da cura e das doenças, médico dos pobres
- Logunan / Logunan Edé — Orixá jovem, filho de Oxum e Oxóssi
- Oro Iná / Iroko — Orixás associados ao fogo sagrado e ao tempo
Como saber qual é o seu Orixá?
Cada pessoa, segundo a tradição, tem um Orixá de cabeça — aquele que rege sua personalidade essencial. Descobrir qual é o seu Orixá é uma das principais buscas de quem se aproxima da religião.
A forma correta de descobrir é através do jogo de búzios, feito por um pai ou mãe de santo experiente. Características pessoais (temperamento, gostos, talentos) podem dar pistas, mas nunca substituem a consulta ritual. Em breve teremos um artigo completo sobre como descobrir seu Orixá.
Perguntas frequentes sobre os Orixás
Quantos Orixás existem na Umbanda?
Tradicionalmente 7 Linhas / 7 Orixás principais, mas a Umbanda também cultua outros como Obá, Nanã, Oxumarê, Obaluaiê. No Candomblé, são 16 a 21 qualidades. Em tradições africanas, podem chegar a mais de 400. Cada casa de Umbanda organiza conforme sua linhagem.
Os Orixás são deuses?
Depende da lente. Na Umbanda monoteísta, são “Divindades” — irradiações da Fonte Suprema (Zambi), não deuses independentes. Numa lente mitológica (como deuses gregos), podem ser entendidos como Deuses da Natureza. As duas leituras coexistem, com a primeira sendo a doutrinária mais aceita.
Posso cultuar mais de um Orixá?
Sim — todos os Orixás trabalham juntos. Você tem seu Orixá de cabeça (regente principal), mas pode pedir, oferecer e se conectar com qualquer um conforme a necessidade. É comum ter um Orixá de cabeça e um juntó (segundo Orixá protetor).
Posso cultuar Orixás em casa?
Pode fazer ofertas simples (vela acesa na cor, flores, oferendas em locais de força adequados) e banhos de ervas. Mas o culto formal — com firmamento, assentamento, sacerdócio — só acontece em terreiro com pai/mãe de santo. Em casa: respeito, intenção e simplicidade.
Qual a diferença de Orixá e Guia (entidade)?
Orixás são divindades, energias da natureza, manifestações de Deus. Guias / Entidades (Caboclos, Pretos-Velhos, Exus, Pombagiras, etc.) são espíritos que viveram na Terra e retornam para servir a caridade através da mediunidade. Os Guias trabalham sob a regência das Linhas dos Orixás.
Como saudar os Orixás?
Cada Orixá tem saudação própria — Epá Babá (Oxalá), Odoyá (Iemanjá), Ora yeyê ô (Oxum), Ogum-iê (Ogum), Okê arô (Oxóssi), Kaô Kabecilê (Xangô), Eparrei Oyá (Iansã). Em breve teremos um guia completo de saudações no portal.
Por que existem datas católicas para os Orixás?
Por causa do sincretismo religioso — durante a perseguição às religiões afro no Brasil colonial, os Orixás foram associados a santos católicos para escapar da repressão. Cada Orixá tem um santo correspondente, e suas festas seguem o calendário católico (Iemanjá no 2 de fevereiro, São Jorge/Ogum no 23 de abril, etc.).
Por onde continuar
- Entenda o que é Umbanda em sua totalidade
- Visite a galeria de Orixás e entidades com imagens e descrições
- Aprenda sobre Exu Tranca-Rua das Almas
- Veja a lista completa de banhos por orixá
Considerações finais
Conhecer os Orixás é entrar em contato com as forças vivas da natureza e as qualidades essenciais do divino. Cada um traz uma lição, uma vibração, uma direção para nossa caminhada espiritual. Saudar um Orixá é abrir os ouvidos para a parte de Deus que aquele Orixá representa.
Saravá os Orixás. Axé!
Fontes consultadas
- Teles, Claudinho. Os Fundamentos da Umbanda (Kindle Edition).
- Morais, Ian. Umbanda para Não Umbandistas: 99 Perguntas e Respostas.
- Trinidad, Alexandre. Cem Banhos de Ervas na Umbanda.
- WeMystic Brasil — Saudações aos Orixás
